Vou passar batom.

Hoje a noite quero ver seus doces olhos. Sentir num abraço, suas mãos quentes sobre minhas costas, sentir o gosto do beijo cansado e o cheiro bom do perfume que já se foi. Quero fechar os olhos e tocar o céu com meus pés depois de um suspiro profundo ao meu ouvido. Quero tocar sua sua calça jeans e o seu peito sobre a camisa suada. Quero beijar seus doces olhos como jamais fiz por alguém. Vou abrir a porta e sentir a brisa das 9. Vou olhar pro lado e ver você de pé, de novo, de volta pra mim. Quero pegar em sua mão, e beijá-la por três segundos. Vou me arrumar, vou me perfumar, vou passar batom. Quero hoje a noite, matar as saudades dessa eterna distância que nos une.
Ele ligou pra mim. Falou que vem me ver.
Ele ligou pra mim. Falou que vem me ver.
Personagem viva .

Gostaria de ter ido à missa hoje. Gostaria de ter não ter faltado, pois assim, pediria perdão por não honrar meu juramento e até mesmo pra pedir perdão por amar tanto alguém. Que coisa é essa, que se faz tão angustiante e tão inebriante ao mesmo tempo? Acho que fui uma personagem viva desses livros que se lê do Romantismo, que morrem na cama com a dor de um amor que consome feito doença o peito. Como definiria esse amor voraz que consome meu peito em pleno século vinte e um? Um amor que morreu numa cama séculos atrás, mas que ressurgiu em mim tomando conta de tudo que tenho nas mãos. Simplesmente, definiria ele como minha própria vida. Esse amor é o choque que impulsiona as batidas do meu coração, que comanda o ritmo dos meus movimentos. É a força que dá força às minhas pernas quando acordo, é o pensamento inacabável que sonda minha mente a partir do momento que abro meus olhos até a hora de dormir. Esse amor é meu respirar, meu suspirar, minha vontade de chorar e ir, de rir e voltar pros braços de alguém que eu sinceramente amo. Se eu posso voar quando estou acordada e sonhar quando estou dormindo, eu devo sim, a esse amor. Não sabia o que ele era pra mim, até a hora que pude experimentar viver sem ele por alguns instantes. No momento em que me passou pela cabeça raivosa, me desfazer de tudo, largar a mão desse amor, que eu descobri que eu realmente amava alguém. Foi nesse lapso de desapego, que percebi que não seria fácil abandonar quem se ama. Se eu não amasse, certamente não haveria descobertas e percepções. Apenas largaria de mão o amor, e fim.
O garoto exótico - Parte V - Fogo e Frio.

No pátio de entrada tinha uma mesa vazia. Como havia tempo suficiente antes da sua primeira aula, resolveu sentar-se naquela cadeira plástica e solitária. O que fazer então naquelas próximas e entediantes duas horas vagas? Nada, respondeu enfezada, a menina a si mesma, olhando vagamente para o além. Aos poucos, o pátio que estava cheio começou a esvaziar e à medida que a brisa do entardecer se tornava mais intensa, mais gente ia de volta para as suas casas. Uma ou outra pessoa adentrava o portão central e ia em direção à sala de aula. Pessoas que ela não conhecia e que apenas observava os detalhes da roupa ou algo parecido. Na chatisse de acompanhar a vida alheia, viu seu coração acelerar subitamente, com a sublime presença de um ser exótico. Tornou-se impossível observar apenas a roupa dele, no meio de tantos charmes, sorrisos e encantos. Lembrou ter passado todo o fim de semana e feriado pensando no tanto que ele já era especial Depois de recordar alguns momentos bobos em que sonhava emersa solidão, continuou enfim, a sua análise detalhada. Aproveitou que ele estava parado a alguns metros na sua frente e reparou melhor no jeito dele se vestir. Como sentiu vontade de sorrir no momento em que bateu os olhos nos seus pés! Seus sapatos pretos de listrinhas brancas era a parte mais interessante de todo o conjunto engraçado. Há séculos não via alguém usando sapatos assim, talvez desde os tempos de primário. Antes que derretesse toda a sua paixão sobre um sapato preto e branco, fechou seus olhos, e numa piscada ele desapareceu. Mesmo antes que a tristeza tomasse conta novamente daquele espaço, o viu ressurgir em poucos segundos diante do seu olhar, agora mais perto e risonho do que nunca, e ainda teve o prazer de receber um aceno cavalheiro. O aceno cavalheiro foi retribuído com um sorriso de Monalisa. Misteriosamente, mesmo eufórica com tal presença, ela conseguiu manter-se sob controle, que até mesmo conseguiu nivelar seu sorriso ao da enfeitiçada Gioconda. E atendendo todas as preces da menina, o garoto foi se aproximando mais e mais até pedir pra sentar-se do seu lado, alegando que precisa de alguém para lhe fazer companhia. Ela indubitavelmente concedeu seu pedido, ele sem hesitar sentou e sorriu, e eles conversaram durante alguns minutos. Foi tudo muito lindo realmente, mais depois daquele breve momento de conversa, algo importante mudou os pensamentos da menina. Apesar de continuar achando o garoto exótico, parou de achar ele o centro das suas intenções e atenções. No dia seguinte já não estava tão ligada ao seu jeito. Ninguém teve culpa. De repente, assim como o fogo da incerteza queimou seu coração nos últimos dias, o frio da certeza consumiu seus neurônios, e a fez entender, que ele simplesmente não servia pra ela. Foi uma paixão tão exótica quanto o garoto, que durou sete dias, e sem explicação voltou ao fundo das águas, para enfeitiçar quem sabe, uma nova vítima.
O garoto exótico - Parte IV - A tortura de um segredo.
Já passava da meia noite e de tanto sonhar acordada, a garota já não podia encontrar o próprio sono. Naquela noite, pra conseguir dormir, precisou escrever numa folha de papel algo que estava sufocando seus neurônios. Começou primeiramente com simples rabiscos, e depois, as palavras soltas nas linhas foram formando um possível diálogo. Apesar de absurdo, era impossível não unir a tentativa de expressar um sentimento ardente, ao raciocínio frio e calculista. Não era a sua melhor qualidade, então não queria que fosse tão fria assim. Só que parecia inteiramente idiota falar para um garoto desconhecido sobre coisas do seu coração. Parecia algo idiota, não pra ela, mas talvez aos olhos dele. Não queria ser considerada uma boba outra vez, mas no fundo, já estava agindo como uma. Onde já se viu, encontrar a lógica em um sentimento? Ela adoraria falar-lhe das coisas que sentia sem pensar num modo óbvio pra dizê-las. Contudo, era perceptível que falar de amor estava cada vez mais démodé naqueles tempos. Algumas vezes, já perdeu muito por querer-se doar por inteira e definitivamente, não queria perder as partes que restavam do seu coração remendado. Queria sim, dividi-lo com alguém que não tivesse medo de doar-se também. Queria do fundo do seu coração, que o garoto, além de exótico fosse démodé. A parte mais difícil até ali, era elaborar consigo mesma um plano infalível, que garantisse sucesso imediato e principalmente a longo prazo no jogo da conquista. Ela estava sozinha nisso e precisava deixar seu exército a postos para enfrentar as possíveis conseqüências. Ouvir um NÃO, certamente valeria como um massacre nos seus campos de batalha. Mas ela não queria perder essa guerra. Era algo que precisava preparar no seu íntimo e pôr pra fora, num momento mais conveniente. E então, quando chegasse esse dia, deveria ter na ponta da língua os argumentos certos pra não ser injustamente tão errada. Meninas têm o poder de investir em um garoto, sem serem encaradas de um modo negativo? – Pensava a garota com ares pessimistas. (Não havia nada de negativo na sinceridade e ela esperava dele, no mínimo, uma sábia compreensão.) Queria ao menos descobrir um pouco da sua vida, assim como fazem as espiãs nos filmes, para preparar o terreno, e saber onde está o tão temível campo minado. Compromissos nesse momento acabam com os planos e com boa parte das esperanças de uma jovem sonhadora. Precisava saber, antes de qualquer coisa, se ele já tem namorada. Ele tem um jeito bem reservado, mas era difícil imaginar um garoto daquele sozinho. No mínimo, ele já teria uma lista de cem páginas de belas mulheres esperando apenas por um beijo seu. Ela queria muito mais que um simples beijo. Ela queria algo além do seu corpo. Ela queria a alma dele pra que, em contato com a dela, virasse uma só. Pensou em bilhetes, ou em mensagens escondidas num papel de chocolate. E se ele não gostasse de bilhetes ou chocolates? Seria perda de tempo. Pensou também em falar sem olhá-lo nos olhos, usando a internet, por exemplo. Mas ela só seria mais uma covarde que não se impõe cara a cara na hora mais importante de uma confissão. Pensou enfim, em dizê-lo tudo que sentia pessoalmente, sem muitos rodeios ou quem sabe, com alguns. Entretanto, achou melhor ter a coragem de ficar calada por mais alguns dias, sofrendo a tortura de guardar pra si um segredo, até que tivesse medo suficiente pra jogar-se do abismo.
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